Bondade 002 – O carro novo da esperança, agora com parcelas, carência e cheiro de ano eleitoral
Depois do Desenrola, da “taxa das blusinhas” e de outras gentilezas súbitas, chegou a vez do volante: R$ 30 bilhões em crédito para quem dirige o país, literalmente.
- O governo abriu uma MP com R$ 30 bilhões para financiar carros novos para taxistas e motoristas de aplicativo. Coincidência eleitoral é apenas o nome fantasia do calendário.
- O programa mira veículos de até R$ 150 mil, porque até o “carro de trabalho” agora precisa passar pela passarela da política pública bem iluminada.
- Motoristas de app precisam ter cadastro ativo há 12 meses e ao menos 100 corridas. O eleitorado, digo, o trabalhador, será filtrado pelo hodômetro burocrático.
- A promessa vem embalada com sustentabilidade, BNDES, juros reduzidos e desconto mínimo das montadoras. Um buquê de siglas para perfumar o carnê.
- No mesmo período de outras bondades públicas, como Desenrola 2.0 e alívio na chamada “taxa das blusinhas”, a vitrine oficial parece ter entrado em liquidação de temporada.
O governo federal apresentou uma medida provisória abrindo R$ 30 bilhões em crédito extraordinário para financiar carros novos a taxistas e motoristas de aplicativo. A justificativa oficial vem com todos os acessórios de fábrica: renovação de frota, sustentabilidade, acesso ao crédito, eficiência energética e aquela camada de verniz social que faz qualquer política pública parecer saída diretamente de um comercial com pôr do sol ao fundo.
Na prática, a iniciativa permite financiar veículos novos de até R$ 150 mil, com condições especiais para profissionais que usam o carro como ferramenta de trabalho. Motoristas de aplicativo precisam comprovar cadastro ativo há pelo menos 12 meses e 100 corridas na mesma plataforma. Taxistas devem estar registrados e em atividade. Ou seja: antes de pegar a chave, o trabalhador precisa passar no bafômetro da burocracia.
O programa também promete prazo de até 72 meses, carência de até seis meses, juros reduzidos e até diferenciação de taxa por gênero, segundo a cobertura da imprensa. É o tipo de anúncio que chega com ar-condicionado digital, painel multimídia e uma pergunta no porta-malas: por que certas soluções públicas parecem descobrir o trabalhador justamente quando o calendário começa a tossir santinho?
Claro, não se trata aqui de afirmar intenção eleitoral. Longe de nós confundir política pública com panfleto motorizado. Mas é difícil não notar a coreografia: primeiro se fala em Desenrola, depois em alívio na “taxa das blusinhas”, agora em crédito bilionário para uma categoria numerosa, visível, urbana e diariamente conectada a milhares de passageiros. A política brasileira tem dessas sutilezas: não precisa dizer muita coisa. Basta oferecer entrada facilitada, carência promocional e parcelas que cabem no discurso exatamente quando o calendário começa a ficar sensível.
O detalhe pitoresco é que tudo vem embalado como estratégia ambiental e econômica. O texto fala em renovar a frota, usar veículos mais eficientes e reduzir consumo anual de combustível. Ótimo. O planeta agradece, o setor automotivo sorri, o banco calcula, o motorista assina e o marqueteiro, discretamente, pede para aumentar a fonte do número “R$ 30 bilhões” no material de divulgação.
A MP ainda precisa seguir seu caminho no Congresso, passando por análise legislativa. Até lá, o programa fica naquele estágio clássico da política nacional: grande o bastante para render manchete, técnico o bastante para parecer inevitável e conveniente o bastante para alimentar suspeitas elegantes, daquelas que não acusam ninguém, apenas levantam uma sobrancelha institucional.
No fim, a categoria recebe uma promessa concreta de crédito, o governo recebe manchete positiva e o eleitor recebe mais um lembrete de que, no Brasil, ano eleitoral é quando o Estado parece lembrar onde deixou a chave reserva da bondade. O problema é que, depois da foto, do discurso e da fita cortada, quem continua pagando IPVA, combustível, manutenção, seguro, juros e prestação costuma ser o mesmo personagem de sempre: o trabalhador, agora com carro novo, carnê novo e a velha sensação de estar levando a política no banco de trás.
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