Bondade 001 – Caneta na mão, recuo no figurino: a taxa das blusinhas sai de cena
Governo zera a taxa que ajudou a criar, chama de alívio popular e torce para ninguém reparar no figurino eleitoral da passarela fiscal.
- O governo Lula assinou MP para zerar o imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
- A cobrança começou em 2024 e virou um daqueles memes tributários que saem barato na internet, mas caros na política.
- A medida provisória ainda precisa passar pelo Congresso, onde o governo anda descobrindo que “base aliada” às vezes é só um grupo de WhatsApp com visualização azul.
- Críticos apontam risco para varejo, indústria e arrecadação, porque no Brasil até o alívio vem com manual de contraindicações.
- O governo tenta vender a marcha à ré como grande avanço; a oposição chama de cálculo eleitoral; o consumidor chama de “finalmente”.
O governo Lula decidiu zerar a famosa “taxa das blusinhas”, aquele imposto federal de 20% sobre compras internacionais online de até US$ 50 que conseguiu a rara façanha de unir economistas, consumidores irritados e fabricantes de memes em uma mesma fila de reclamação. A Medida Provisória foi assinada em maio de 2026 e, segundo a CNN Brasil, passou a valer a partir de 13 de maio, embora ainda dependa do Congresso para não virar mais uma promoção por tempo limitado da política nacional.
A cena é digna de desfile em Brasília: primeiro se cria a cobrança, depois se sofre o desgaste, então se anuncia o fim da própria criação como se fosse libertação nacional. É o equivalente tributário de esconder o guarda-chuva, deixar todo mundo tomar chuva e depois aparecer vendendo sol em coletiva de imprensa.
O governo sustenta que a mudança foi possível após avanços na regularização do comércio eletrônico e no combate ao contrabando. Ótimo. Mas a plateia, essa entidade inconveniente chamada eleitorado, parece lembrar que a taxa entrou em vigor em 2024 e passou a pesar justamente nas comprinhas pequenas, aquelas que não financiam mansão em Miami, mas talvez uma capinha de celular, um cabo USB e a blusinha que batizou o drama.
O G1 tratou o fim da taxa como uma das primeiras reações do governo às derrotas recentes no Congresso, enquanto parlamentares de oposição e do Centrão enxergaram na manobra um forte apelo eleitoral. Tradução simultânea de Brasília: quando o bolso reclama, a urna vira consultoria estratégica.
Do outro lado, há quem veja problema econômico na bondade repentina. O Poder360 publicou opinião avaliando que zerar a cobrança pode prejudicar comércio nacional, indústria e arrecadação, especialmente pequenos e médios lojistas que competem com gigantes internacionais. É a velha equação brasileira: para aliviar o consumidor hoje, alguém pergunta quem paga a costura amanhã.
A Gazeta do Povo, em editorial, foi mais direta no tom crítico e classificou o recuo como um exercício de cinismo político, apontando que o governo tenta celebrar o fim de uma cobrança que sua própria base ajudou a viabilizar. Em Brasília, isso não é contradição; é figurino reversível. Um lado serve para arrecadar, o outro para pedir voto.
No fim, a “taxa das blusinhas” saiu do carrinho, mas deixou no checkout uma pergunta incômoda: era política fiscal, proteção à indústria, combate ao contrabando ou apenas mais um imposto que ficou feio na foto? A resposta oficial vem embrulhada em papel celofane institucional. A resposta popular, provavelmente, cabe em três palavras: “sentiram o desgaste”.



