O governo abriu as portas da transparência, mas esqueceu de destrancar os armários
A transparência prometida chegou com holofote, discurso bonito e uma cortina bem grossa na hora de mostrar recibo, agenda, passageiro, barco e cartão corporativo.
- Em 2022, Lula criticou o uso do sigilo de 100 anos por Bolsonaro, enquanto o debate presidencial virava ringue de bordões e acusações.
- Segundo O Tempo, o governo Lula impôs sigilo de 100 anos a 1.339 pedidos de acesso à informação em 2023.
- A Folha relatou negativas sobre informações de viagem e hospedagem de Janja em Nova York.
- UOL e Poder360 noticiaram que relatório do TCU apontou sigilo em mais de 99% dos gastos com cartão corporativo da Presidência.
- A CGU, em contraponto, afirma que não houve aumento proporcional de negativas por dados pessoais em comparação com o mesmo período do governo anterior.
A política brasileira tem uma vocação quase artística para transformar promessa de transparência em cortina de fumaça com carimbo oficial. Em 2022, Lula criticava o sigilo de 100 anos usado por Bolsonaro como quem prometia abrir as janelas do poder e deixar o povo ver a mobília. O adversário respondeu com ataque pessoal, o debate desceu alguns andares no elevador da civilidade, e a transparência, coitada, ficou esperando na recepção.
Veio a troca de governo e muita gente imaginou que os cadeados seriam aposentados, embalados em plástico bolha e enviados ao museu das práticas que ninguém mais queria defender em público. Mas, segundo reportagens, o sigilo não saiu exatamente de cena. Apenas trocou de figurino, ganhou nova justificativa e continuou circulando pelos corredores oficiais como aquele convidado inconveniente que ninguém assume ter chamado.
O caso ganha tempero quando aparecem pedidos sobre agenda, viagens e hospedagens envolvendo Janja. A primeira-dama não ocupa cargo formal, mas participa de agendas e eventos com visibilidade pública, o que cria um daqueles limbos tipicamente brasilienses: perto o bastante do poder para despertar interesse público, longe o suficiente do organograma para a burocracia vestir capa de neblina. É a institucionalidade em modo sombra: todo mundo vê o contorno, mas ninguém consegue ler a legenda.
No cartão corporativo, a ironia chega com roupa de gala. Reportagens do UOL e do Poder360 apontam que mais de 99% dos gastos da Presidência ficaram sob sigilo no período analisado pelo TCU. O cidadão até enxerga o tamanho da conta, mas não necessariamente o cardápio. É como receber a fatura de um jantar misterioso pago com dinheiro público e ouvir, no fim, que perguntar o prato principal pode comprometer a segurança nacional do garçom.
A hospedagem em barco durante a COP30, em Belém, também entrou na novela da transparência seletiva. Segundo a Folha, a diária informada foi de R$ 2.647 por pessoa, com contrato mantido sob sigilo até o fim do mandato. A justificativa oficial envolve segurança, logística e economicidade. Pode ser. Mas a cena é irresistível: em nome do clima, aluga-se um barco; em nome da transparência, o contrato aprende a nadar para longe dos olhos do contribuinte.
No contraponto, a CGU afirma que não é correta a leitura de que houve aumento proporcional das negativas por dados pessoais, dizendo que o percentual caiu em relação aos dois primeiros anos do governo Bolsonaro. É um dado importante e deve entrar na conta, porque crítica séria não precisa fingir que a defesa oficial não existe. Mas também não resolve a pergunta principal: se a promessa era ampliar a transparência, por que tanta informação pública ainda parece guardada num armário com senha emocional?
No fim, o Brasil parece ter inaugurado a era da transparência fosca. Dá para ver a silhueta do gasto, o vulto da agenda, a sombra da viagem e o formato do contrato. Mas quando o cidadão chega perto para ler os detalhes, aparece a plaquinha clássica da República: “informação indisponível no momento”. O momento, curiosamente, costuma durar até que o interesse público canse, a manchete envelheça e o cadeado possa dormir em paz.
FONTES:
https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/08/28/bolsonaro-chama-lula-ex-presidiario-debate.htm



